quinta-feira, 24 de novembro de 2011

ENTREVISTA

Noel Sanches: 

“Nosso maior inimigo é o governo do estado”

Professor Noel Sanches critica Estado e SINTEPP de Belém

Noel Sanches, coordenador do Sintepp
Professor Noel Sanches, do SINTEPP, critica Estado e a classe em Belém

A dissidência da categoria dos professores de Santarém, em manter a paralisação até sexta-feira, acabou revelando a revolta não apenas com o governo do Estado, mas com a direção do SINTEPP em Belém. Em uma entrevista exclusiva ao IMPACTO, o representante sindical Prof. Noel Sanches, faz revelações, admitindo que a posição da categoria, também é política. Ele acusa o governo Simão Jatene que, segundo ele, “fratura os direitos do trabalhador da educação”. Disse também que a classe em Santarém “entende que é necessário se contrapor a uma decisão de Belém e, infelizmente, o próprio sindicato não percebeu que nós também temos vez e voto”. Elogiou a diretora da 5ª URE, Maria José Maia, considerando-a como “uma pessoa de muita boa fé”. Noel disse também que a manifestação que vai acontecer nesta sexta-feira, a partir das 8 horas da manhã, na Praça Barão de Santarém, também vai marcar a posição da classe com o movimento do SIM Tapajós. Acompanhe a entrevista:
JORNAL O IMPACTO: O que saiu de prático da reunião entre o comando de greve e a direção da 5ª URE, na última segunda-feira?
Noel Sanches: Colocamos a nossa posição de que a paralisação continuaria. A greve já encerrou no Estado, mas como prova de manifestação em favor do sim, entre outros motivos, ficou acertada a reunião com os vereadores na quarta-feira, em uma audiência pública e, na sexta-feira, teremos um ato na Praça Barão de Santarém, a partir das 8 horas da manhã. A direção da 5ª URE deixou claro que todos ficariam à vontade para participarem dos atos programados.
JORNAL O IMPACTO: Dessa forma, a decisão teria levado em consideração uma posição mais política do que a reivindicação principal que era o cumprimento do pagamento integral do salário nacional dos professores?
Noel Sanches: A piori, a ilegalidade da greve foi decretada a partir do momento em que nós não retornamos às atividades. Sabemos que o governo primeiro descumpre uma Lei Federal, então, como forma de repúdio a esse ato do governo Estadual foi que nós marcamos posição em Santarém. A categoria de Santarém, que são mais de 1.500 professores, entende que é necessário se contrapor a uma decisão de Belém e, infelizmente, o próprio sindicato não percebeu que nós também temos vez e voto, aqui em uma sub sede, e eles talvez não acreditem que nós temos tanta força, até pra nos contrapormos ao Estado. Nesse sentido, então, nós resolvemos permanecer, também em repúdio ao próprio sindicato de Belém que só quer mandar. Eles se recusam a ouvir as lideranças de Santarém.
JORNAL O IMPACTO: O comando de greve de Santarém apurou direito a informação de que um líder de Santarém não teria conseguido falar na assembléia, em Belém, que decidiu o fim da greve?
Noel Sanches: Vale ressaltar que esta foi uma comunicação infeliz, pois a bem da verdade, não foi um representante daqui, pois quem representa Santarém são os líderes que são pessoas autorizadas: Eu, a Izabel Marinho, a Izabel Sales, e às vezes o Márcio Pinto. O colega que foi, não foi delegado por ninguém, e não, portanto, na condição de representante oficial da categoria. Ninguém sabe direito o que aconteceu para se dizer com toda a veracidade isso.
JORNAL O IMPACTO: Mas a Izabel Marinho, que como você disse, tem autonomia para falar em nome do comando de greve, comentou isso na imprensa.
Noel Sanches: É, ela chegou a comentar, porque ouviu dele isso. Nós não podemos dar consistência a essa fala porque nós não estávamos presenciando. Às vezes, o que vem de Belém nem sempre é a verdade. Por exemplo, algumas escolas, já tinham voltado à atividade em Belém, e eles, confirmavam pra nós que não. Aí foi a Izabel Sales, e lá confirmou que já havia um refluxo realmente.
JORNAL O IMPACTO: O comando de greve de Santarém chegou a tratar explicitamente sobre a posição do governo quanto a um possível desconto dos dias parados?
Noel Sanches: Com toda certeza. Como nós vamos retornar depois de Belém, de uma dita greve – que nós consideramos como uma paralisação – é claro que a 5ª URE se posiciona contra. Uma vez que o professor não vai para a sala, nós vamos ter que pagar esses dias. Não pagando esses dias, automaticamente, será considerada a falta para todos aqueles que não compareceram na data da convocação. Nesse caso, faremos a reposição ou teremos o desconto. O calendário das atividades ficou de ser proposto pela 5ª URE, até nesta sexta-feira. Só depois disso é que nós teremos uma posição qualificada se teremos ou não a falta. Mas a direção nos deixou bem à vontade para nós nos contrapormos aos desmandos do governo.
JORNAL O IMPACTO: Você chegou a ameaçar a direção da 5ª URE de tornar público a relação dos funcionários fantasmas. Com ficou essa questão?
Noel Sanches: Desde o momento em que nós nos manifestamos sobre isso, havia alguns colegas verdadeiramente fantasmas, de tempos anteriores, e a 5ª URE acabou recebendo esses colegas, mas o bom disso é que eles, mesmos diante da ameaça, se comprometeram de resolver a situação. Eles na verdade estavam de licença, em outro órgão e, a partir do retorno desta licença, começaram a atuar nas devidas funções, e cumprem, hoje, normalmente suas atividades. De qualquer forma, pelo fato de nós termos mencionado, a própria 5ª URE já deu a solução e foi uma forma de buscar essas pessoas.
JORNAL O IMPACTO: Esse pode ser considerado como um exemplo de relacionamento saudável entre o comando de greve de Santarém e a direção da 5ª URE?
Noel Sanches: O nosso relacionamento com a direção é muito amistoso, por sinal. A representação da 5ª URE, hoje, é uma representação de peso, independente do fato de ela estar ligada por parentesco com um político na nossa região. Ela representa a essência da educação e demonstra, no seu perfil profissional, ser uma pessoa de muita boa fé. É muita aberta para a dialeticidade entre o SINTEPP e 5ª URE. A professora Maria José, enquanto representante do governo, nunca se mostrou inconseqüente, irresponsável, e nunca se negou a nos atender. Pelo contrário, as portas ficaram sempre abertas para que nós pudéssemos dialogar. A maior prova disso aconteceu na segunda-feira à tarde, na reunião em que estavam mais de 50 pessoas do comando, e ela sozinha, de maneira, incólume, mostrou-se firme diante das nossas decisões. Ela entendeu que a nossa decisão não era de um grupo mínimo, mas de mais de 350 pessoas, que decidiram continuar com o movimento aqui em Santarém.
JORNAL O IMPACTO: Você chegou a considerar que, com o fim da greve em Belém, o movimento de Santarém ficaria fragilizado. Você repensou na sua declaração, ou não?
Noel Sanches: A partir do momento em que a assembléia decide, eu acabo também acompanhando a decisão da assembléia. Num primeiro momento eu contrariava isso, levando em conta que nós somos apenas um sindicato. Eu sempre primo pela união do nosso movimento, independente de ser contrário ou não à posição do outro. Nós não podemos sair do foco de combater o inimigo maior, que é o governo do Estado que fratura os direitos do trabalhador da educação.
JORNAL O IMPACTO: Mesmo assim, a impressão que dá é que a quebra de braço agora é também com a própria direção do SINTEPP em Belém. Você confirma isso?
Noel Sanches: Tem algumas idéias da direção em Belém que nós não concordamos. É claro que o nível de debates aqui em Santarém é alto, o nível de consciência também é elevado, mas é normal que cada um tenha a sua definição diferenciada. Alguns se aproveitam do movimento até para crescer politicamente. Mas tudo isso, está no bojo do processo de luta. Isso é perfeitamente normal. Cabe a cada um de nós analisarmos com lisura e tomarmos as nossas decisões da maneira mais livre possível.
JORNAL O IMPACTO: O que foi proveitoso e o que não foi durante o movimento?
Noel Sanches:Positivamente, o nível de consciência foi alto. Durante todo esse tempo os colegas se mantiveram unidos, fortes e destemidos.  Aqui não teve nem um refluxo (nenhuma escola quis voltar). A única, que foi a escola São Felipe, que tentou voltar, nós fomos lá e, pelo poder do convencimento, os colegas se solidarizaram com a luta. Como ponto negativo, nós consideramos os acontecimentos desta semana. A direção da 5ª URE convocou e os colegas que não se envolveram na luta compareceram para dar aulas a poucos alunos, como a imprensa tem mostrado. Mas na segunda-feira voltaremos 100%.
Por: Alciane Ayres (Jornal O Impacto)

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